"What if everything around you,
Isn't quite as it seems?
What if all the world you think you know,
Is an elaborate dream?
And if you look at your reflection,
Is it all you want it to be?
What if you could look right through the cracks,
Is that all you want to be
Would you find yourself...find yourself afraid to see?
What if all the world's inside of your head?"
(Nine Inch Nails - Right Where It Belongs)
Religião sempre é um tópico um tanto quanto difícil de abordar, principalmente entre pessoas de diferentes ideologias. Por mais que qualquer um possa lutar contra, ela define uma boa porção de quem somos e dá uma referência de onde viemos. Na infância determina nossos valores, na adolescência molda nossos limites e na idade adulta se torna um ponto a discordar ou seguir.
Eu acredito que exista em todos nós um ponto de ruptura entre a infância e a maturidade. Um ponto em que reavaliamos todos os nossos valores e determinamos quais continuarão conosco dali para frente. Ao menos assim imagino que todos façam. Essa transição é longa e, muitas vezes, sofrida. Durante esse período, um dos pontos mais remoídos é a nossa espiritualidade. Não adianta negar, todos temos algum tipo de espiritualidade. É inerente ao ser humano. Mesmo quando negamos a existência de um deus ou de qualquer força maior, algum tipo de espiritualidade possuímos. Seja amor ao dinheiro, ao poder ou a qualquer outra coisa. Necessitamos estar ligados a algum tipo de valor.
Em algum momento da minha vida a religião deixou de me dar respostas às minhas perguntas, deixou de ser suficiente como fonte de espiritualidade. A idéia de que todas as respostas estivessem restringidas a uma igreja sempre me soava limitada e incompleta. Tão inconsistente quanto a idéia de que eu seria menos se não fosse igualmente seguidora dos dogmas, de que minha vida nunca seria completa se não fosse preenchida com domingos em uma igreja repleta de pessoas das quais muitas eu não gostaria de estar perto.
Mas mais que tudo, a idéia da culpa me perseguia. Eu nunca consegui concordar com a lógica de que uma religião deva ser calcada sobre a culpa dos seguidores. Nunca consegui entender porque sempre que qualquer pessoa se referia aos católicos, mencionava o quanto os católicos são impulsionados pela culpa. Até que um dia, ouvindo alguém falar, com bastante animação, sobre o quanto deveríamos ser bons, ajudar ao próximo, etc. porque Jesus tinha morrido na cruz por nós, eu entendi. Naquele dia, por alguma razão, eu descobri porque a religião nunca conseguiu preencher o espaço destinado à minha espiritualidade: a culpa era responsável.
Acredito que a confissão é desnecessária. Não me arrependo dos meus pecados, e é justamente isso que me faz uma pessoa melhor hoje do que eu fui ontem. Aprendi a viver com os meus erros, respeitá-los pelo que eles são e seguir em frente. Muitos dos meus erros tornaram-se os melhores momentos da minha vida. Eu diria que minha vida e quem eu sou são definidos muito mais pelos meus erros que pelos meus acertos. A idéia de confessar meus pecados quando não me arrependo deles é pura hipocrisia. E não acredito que o objetivo de qualquer religião seja tornar os seguidores em hipócritas. Além do mais, sinceramente... um pecadinho aqui e ali faz bem.
(Bem, levando em consideração que 1. eu não mato (às vezes sou obrigada a matar mosquitos, porém), 2. procuro não levantar falso testemunho (apesar de às vezes estar errada...), 3. respeito meus pais (mesmo mostrando a língua para eles volta e meia), 4. não roubo nem bala (mas já peguei dinheiro na carteira da minha mãe para comprar sorvete...), 5. amo minha espiritualidade acima de tudo, 6. não traio (estamos falando sempre no presente), 7. não cobiço a mulher do próximo (até porque prefiro homens), 8. não tenho pecado contra a castidade (infelizmente) sou bem comportada. Já respeitar domingos de festa sem trabalhar e não dizer “Ai meu Deus!!!” tem sido difícil....) Acredito que Deus existe. Só que não sinto nenhuma necessidade de provar a quem quer que seja. Não preciso ir à igreja, não preciso falar à respeito, não preciso rezar, não preciso fazer absolutamente nada para acreditar. É simples assim. Eu respiro e sei no que eu acredito. Eu sinto medo, eu me sinto feliz, me sinto insegura, me sinto confiante, rio e choro, rezo quando quero, e me pergunto “por quê????” quando quero, converso com Deus quando sinto vontade e somos bons amigos. Tão bons amigos que sabemos respeitar o momento de cada um. Os longos silêncios e as longas conversas. Não existe construção no mundo que me faça acreditar em Deus. Mas basta eu abrir os olhos e sentir o vento e eu não tenho dúvidas.
Eu acredito em fazer o bem, acredito em ser uma pessoa melhor, acredito em ajudar quem precisa. Mas não acredito em fazer tudo isso porque alguém morreu por mim. Isso é pura e simples chantagem emocional. Que valor existe em uma boa ação que é feita tendo por base a culpa? Que valor existe em dar agasalhos a uma criança com frio se a boa ação foi feita pensando em como isso será bem visto pelas outras pessoas? Os fins são alcançados, mas isso não faz de ninguém uma pessoa melhor. Apenas torna a pessoa mais hipócrita. Poucas coisas me deixam tão menos disposta a ajudar do que a tentativa de me fazer sentir culpada. Boas ações devem partir da minha vontade sincera de fazer o bem, independente da recompensa, independente das ações e opiniões de outras pessoas. Tudo o que é feito em função da culpa é feito em detrimento da real bondade. É sempre acompanhado por um pingo de raiva, é acompanhado por um pingo de vaidade.
Claro que não vivemos em um mundo perfeito nem somos perfeitos. Aquilo que mais criticamos muitas vezes é aquilo que mais fazemos. E não falo isso de forma leve. Não passa muito tempo sem que eu repare que quando não consigo o que quero acabo fazendo com que as pessoas se sintam culpadas. Mais uma prova de que os dogmas que aprendemos são uma parte muito incrustada em nós. A escolha que temos é aceitar ou mudar. E justamente nesse ponto está a maior beleza de qualquer religião, de qualquer orientação espiritual, a beleza de ser humano... O livre arbítrio. A chance de errar e consertar. A oportunidade de mudar e crescer. A incrível experiência que é tentar ser alguém melhor. Eu acredito que não existe vida sem sentido nem sofrimento sem razão quando buscamos evoluir.
Afinal de contas, a evolução é a única ação que efetivamente liga tudo e todos no Universo. A única coisa que absolutamente nada consegue evitar.